Quem eu? Agora, fale um pouco sobre você.
Não sei... Mas, toda vez que abro uma lata de Pomodoro Pelati acho que vou encontrar um tomate de óculos escuros gritando tentando se enrolar numa toalha!
Ah, vai dizer que você não me conhece!?
Quem eu? Agora, fale um pouco sobre você.
Não sei... Mas, toda vez que abro uma lata de Pomodoro Pelati acho que vou encontrar um tomate de óculos escuros gritando tentando se enrolar numa toalha!
Ah, vai dizer que você não me conhece!?
http://www.youtube.com/watch?v=XvVxk3eOyrE&eurl=http://www.orkut.com/FavoriteVideos.aspx?uid=10405396651110388368
Hoje é dia de encontrar o chefe. Seria tudo tranqüilo se ele não tivesse aquela secretária.
Não sei o nome dela, lembro que é um típico nome de pobre, metido a exótico e cheio de s, h, x, y... Pobre adora um y! Qualquer coisa metida a internacional e que no fim parece apelido de buceta! O nome é pouco diante do caráter dissimulado. A imbecil se disfarça de boa para ser amada fazendo voz de criança que se perdeu no shopping center, especialmente quando esquece de fazer suas tarefas. Sim, porque além de esquecida é incompetente. E ainda é competitiva de uma forma imbecilmente infantil, gosta de se sentir superior. Dia desses falou para a faxineira que se ela continuasse lendo a revista Mais Você não ia ser ninguém, e concluiu gargalhando − por isso eu leio a revista Seleções! A secretária se diz uma dona de casa muito prendada: faz massa de biscuit para esculpir bibelôs inúteis, e se orgulha muito do seu prato principal − galinha com alho. Pensa inclusive que poderia receber uma medalha de honra ao mérito por sua galinha com alho. Nunca provei nada do que ela cozinha, até porque descobri pelas manchas amarelas na altura do sovaco do seu jaleco branco que ela não gosta de tomar banho. Não tenho problemas com pessoas mal amadas, enjeitadas, semi-burras, mas acho absurdamente desprezível gente porca.
Ouvi sem querer do faxineiro do almoxarifado que ela paga boquete muito bem. Tive nojo!
Minha cabeça explodia só de pensar em encontrá-la, meu estômago queimava de ódio. Detesto odiar pessoas que fingem me tratar bem, porque aí o fato de eu odiar a pessoa fica parecendo esquizofrenia nervosa. Respirei fundo, abri a porta do escritório. Não encontrei a secretária. A faxineira que lia a revista Seleções disse muito animada que ela preencheu um cupom e ganhou uma passagem para a Bolívia, realizou o maior sonho da vida dela morar no estrangeiro!
Sorri levemente. Respirei fundo. Nunca fiquei tão feliz pela realização do sonho de alguém. Só assim consigo adorar as pessoas que eu odeio, quando elas estão bem longe de mim.
Lars
Love me, love! Say that you love!
Fool Me! Fool Me! Go on and fool me!
O quê? Você não quer? Tudo bem eu compro.
Aceita cartão? Unimed ou Droga Raia?
Lars
Há quatro meses quase... Eu não escrevia... Ficava sentindo e imaginando coisas sem dizer nada.
Tinha medo do ridículo! Sim, sabia que era imbecil amar um cantor de cabelo acaju médio que fazia cover de Jerry Adriani na Praça XV. Mas como todas as cartas de amor são ridículas resolvi fazer a minha. No meio da noite e da angústia, a caneta bic jorrava num papel de carta o que esvaía do meu coração maltratado de esperanças.
“Jerry Acaju” recebeu a carta e respondeu no dia seguinte. Agradecia meu carinho e dizia torcer por mim... e outras coisas pseudo-sinceras e carinhosas, que pareciam escritas por uma secretária de um ídolo profissional. Li a resposta. Sofri, mas não chorei. Afinal, tudo tem um limite. Tive muita vontade de responder: Cu! Beijos! Mas, não fiz isso. Nunca mais pisei na Praça XV. Para me sentir melhor lembrei que sempre preferi o Ronivon. Um pequeno detalhe sórdido: Todas as vezes que entro numa farmácia, cuspo discretamente nas caixas de tinta para cabelo acaju médio – Oh, cor ingrata!
PS Canção: "Por um ruivo vagabundo/ Ralei meu cu no asfalto/
Vim descendo lá do alto/ Do cume da ladeira/
Eu o achava verdadeiro/ Cabelo de Crepom/
Depois eu descobri/ Aiii!/ Ele usava welaton."
Lars
Naquele dia voltou da escola e se trancou no quarto. Não quis comer, não tomou o refresco, não olhou para a sobremesa. Tirou a mochila como se despisse da culpa de ser... olhou a face rosada no espelho e com dor concluía o que lhe era dito desde bebê. Lamentou a denúncia do espelho: era bonita. Sentou na cama sofrida. Apertou o soluço na almofada para que ninguém da casa percebesse. Permaneceu na cama escorrida. Teve medo de se olhar de novo no espelho. Teve medo de ser bonita até chorando. Tinha vergonha de si. Bela no seu uniforme de jardineira estirada na cama entendia a própria sina. Segurava o bilhetinho do coleguinha da escola todo amassado com letrinha de caligrafia irregular cheia de vida. Lembrou que recusou o beijinho no parquinho. Mania mais chata a do João de querer segurar na mãozinha dela no balanço. Não deu beijinho, não dividiu o lanche no recreio e por pouco não mostrou a língua para ele na saída. Criminosa com suas botas ortopédicas, ela triste sabia: tinha pisado num coração.
Lars
Verdades...
Um dia resolveu que não mentiria mais... Disse várias verdades causou alguns infartos, mortes e desentendimentos. Nada é mais criminoso do que a verdade.
Lars
Era adolescente e desejava um destino ilícito. Entretanto, seu estômago não acompanhava seus anseios. Na segunda lata de cerveja golfava onde estivesse. Na primeira tragada de qualquer espécie de cigarro seu estômago se contorcia em dores. Insatisfeito com seu destino fadado a bom moço entrou no seu quarto e fez um silêncio dolorido ao som de rock pesado. Andava calado pelos corredores, desgostoso. Juntou dinheiro da mesada, com um brilho especial nos olhos entrou em casa. Despejou sua compra sobre um LP de banda favorita. Fez uma carreira enorme. Caiu espumando encantado na cama, na sua overdose morria como seus heróis.
Lars
Eulália tinha 97 anos e já não conseguia dizer mais o próprio nome. Suas enfermeiras sempre a colocavam para dormir às 19h. Um dia Eulália aborrecida, na calada da noite das 19:30, levanta da cama sem ninguém ver, pega a arma do falecido marido, escondida num fundo falso de gaveta na sala. Mata as enfermeiras. Vai até a cozinha, abre a geladeira, frita pedaços de bacon e aguarda a novela das oito, feliz.
Lars
Não é porque você detonou meu coração com uma granada de mão... Tampouco porque se você pensa que vai fazer de mim o que faz com todo mundo que te ama... Ou porque você talhou um V no meu peito com estilete...
Vinícius... eu era a menina com uma flor e você jurou amor eterno...
Agora quero Neruda que me quer a “sangre e fuego”.
Mesmo assim piso no meu orgulho como quem pisa em brasa com os pés descalços (com a consciência sã de quem detesta comparações, metáforas e sabe que analogia é coisa de gente quase burra).
Segue o convite: Espero você no lugar de sempre com taças grandes onde carpas possam nadar (pois há menos peixinhos a nadar no mar do que beijinhos que eu darei na sua boca). Já estarei feliz, se você for serei mais (que é para acabar com esse negócio de você longe de mim)!
Lars
Procurando bem todo mundo tem pereba... piolho, remela, unha encardida, dente com comida, sujo atrás da orelha, calcinha velha, medo...
Só a bailarina que não tem!
Cansei de ser gente da gente! Cansei da minha pele ruim, de cheiros comuns, de roupas velhas e amassadas, de medo.
Amanhã mesmo vou me matricular em uma aula de ballet.
Entrarei na sala de aula a bordo de um tchutchu esbanjando deboulés.
Quando estiver cansada chorarei por ter esquecido minhas polainas...
Chorarei?
Nada, dessas coisas bailarina não tem!
Lars
Precisou mais uma vez descer correndo as escadarias para comprar um maço de marlboro, do vermelho. Nada na sua vida estava light.
Tentou pensar enquanto tragava. Sentou no bar. Para tentar sentir menos desespero e decadência trocou a cerveja pelo Kir Royal. Um espumante sempre nos transforma em pessoas interessantes. Um brinde para resolver mudar o modo de vida.
Há quase seis meses amava duas mulheres incrivelmente lindas, interessantes, e insuportavelmente perigosas. Uma fotógrafa que queria arrastá-lo para Paris, com uma bela alma fake. E uma cantora ruiva de boate com uma bela voz e caráter duvidoso. Belos rótulos que escondiam cidras baratas.
Da fotógrafa guarda o telefone, escrito num guardanapo sujo, e fotos virtuais de poses mentirosas. Da cantora guarda o rubor dos cabelos e o jeito meigo (que só as mulheres sórdidas conhecem o tom certo).
Deu vários socos na própria cabeça para não pensar mais nelas. Quebrou os espelhos da casa, e por pouco não cortou os pulsos.
Nada podia ser mais criminoso que a verdade latejante: elas não amam você mais! Mentira, elas nunca amaram você!
Uma lágrima escorreu dos seus olhos, no rádio tocava "your kisses never more", ouviu, pensou nas mulheres odiosas que amava, e chorou como uma criança. Tentava parar ao pensar que um dia iria rir de tudo aquilo. Será que cada panela tem sua tampa? Odeia a filosofia barata escondida por trás dos provérbios.
Bebeu todo o Kir Royal, parou de chorar e percebeu que estava livre das víboras. Levantou confiante, apagou o cigarro com o sapato como se fosse John Travolta nos "Embalos de Sábado à Noite", ou quem sabe
Com ares de galã resolveu que não voltaria para a casa, não desistiria de si. (Com o paladar espumante pensou que a vida é muito mais doce do que isso). Dançaria em algum lugar, conheceria uma bela mulher, ou duas.
Lembrou: nunca dizer nunca, never more.
Lars
Domingo, o dia desgraçado do descanso.
Triste e com dor de cabeça acordou. A mente de um maestro quando dói parece uma nota de todos os naipes de cordas errados, percussão nas têmporas. Despertou Andante sem a menor lembrança de um Allegro Vivace. Sorriu sem a menor pretensão de alegria ao lembrar que sua mulher, agora ex, sempre confundia a "Nona Sinfonia de Beethoven" com "Jesus Alegria dos Homens". As músicas não são parecidas, e a segunda é do Bach. Não se pode confundir Bach com Beethoven. Nada justifica a confusão, nem as letras iniciais.
Respirou fundo como quem morre, e teve que decidir entre levantar da cama e morrer. Lembrou que talvez o revólver estivesse carregado, pensou que se o revólver estivesse sem balas podia perfurar o crânio com a furadeira. Lembrou, acima de tudo, de que era um homem discreto e higiênico e não gostaria de fazer alardes na hora da morte.
O telefone tocou a "Nona Sinfonia de Beethoven" toque da ligação do filho. Lembrou dos olhos do menino. Hoje eles almoçariam e o garoto vestiria azul e talvez sorrisse da fumaça da comida como sempre.
Que rufem os tambores! Atendeu, tomou banho, saiu.
Domingo é o primeiro, mas também é o fim, como o gosto de morte que às vezes a vida toma, aspartame preso na garganta.
Pegou sorrindo o menino no colo, olhos infantes - Presto, prestissimo.
Pensou na "Nona Sinfonia" talvez ela realmente lembrasse "Jesus Alegria dos Homens".
Os corações abraçados deles batiam - molto vivace.
Lars
Festa de formatura não se sabe de quem, o que importa é que a festa é regada.
Beberam, fumaram, tentaram sorrir e passos desastrados de "do you wanna dance" com "whisky a go go".
Até que alguém tira um papel do bolso e estende carreiras no banheiro.
Teenagers com nariz branco sorriem exclamando: é melhor do que ficar bêbado e fumar!
Corisa nasal animada, turminha afetada, olhos arregalados. Pente na bandeja e o grito de guerra: É nós é Kate Moss!
Alguém cutuca um ombro alucinado dizendo que aquilo mata.
O dono do ombro responde: eu sei, mas é só um pouquinho.
Lars


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